Sequência de relatos da RAAM 2019 #2

Período: segundo dia


Escolhi para me acompanhar no relato deste momento o Dr. João Felipe Franca, médico especialista em Medicina do Exercício, esteve na minha equipe na da RAAM 2019 e 2009.




Meu relato - segundo dia da RAAM 2019

Dada a largada, estávamos para dentro da Califórnia em direção ao deserto do Arizona. Foi um inicio duro, árduo, típico do Race Across America, que não perdoa ninguém, nem mesmo a equipe de apoio. As temperaturas elevadíssimas, dificultam e minam os atletas e a equipe de tal forma que muitos abandonam a prova em decorrência das dificuldades encontradas neste trecho.


Me lembro bem nas reuniões da equipe que antecederam a prova que doutor (Dr. João Felipe Franca) sempre falava que a prova só começava depois do Colorado. Até lá era para seguir o MODO CONSERVADOR! Eu, com 10 anos competindo em ultra de ciclismo e querendo reduzir meu tempo em relação a RAAM 2009, não estava concordando muito com doutor. Pensava em já tentar fazer uma média maior desde a largada.


No início da prova as competidoras ficaram muito próximas, com contato visual o tempo todo. Isso mexeu muito comigo. Já conhecia a maioria delas e tive dificuldade em encontrar meu ritmo, acabei andando mais forte que deveria . Quando fechamos as primeiras 24h, era final dia, o sol estava se pondo e o calor era infernal . Quando chamei o followcar (carro de apoio que fica atrás da atleta) para pedir algo para comer e vi doutor tomando seu Insure (shake proteína) geladinho, fiquei com vontade. Detalhe, odeio Insure , mas ao vê-lo tomando com tanto gosto, acabei pedindo um para mim. Bebi num único gole e segui pedalando, falei que não precisava comer mais nada e que íamos seguir, pois já havia tomado a proteína.


Passou alguns minutos, meu estômago começou a embrulhar, e pronto: enjoei brabo, coloquei tudo para fora (vomitei muito). O pânico me dominou, um pânico silencioso pois já havia abandonado uma prova depois que comecei a vomitar. Tentei me controlar, e pensei "estou aqui com doutor, ele vai dar um jeito e me ajudar a sair desta ". Falei com ele dos meus medos e ele me falou o seguinte "Dani , aos pouquinhos vai bebendo água, não se preocupe em comer, mas vai tentando se hidratar ".


Obviamente que meu ritmo diminuiu. Me distanciei de todas as competidoras, fiquei em último, bem bem distante das líderes.


Ao chegarmos no Arizona, nada de melhoras. Já estava completando quase 24h sem conseguir comer, beber era um golinho atrás do outro. Neste momento minha garrafinha de água estava com pouco de carboidrato e sais mineiras juntos. Acho que estávamos em Flagstaff (Arizona, USA), quando, durante o amanhecer, ao descer uma montanha linda meu estômago despertou. Senti uma fome louca! Eu queria comer um boi... literalmente um boi.


Nesse momento apareceu um Jack in the box e o doutor não estava no followcar. Eu entrei no estacionamento da lanchonete e a equipe do carro se surpreendeu, pois disse que estava com fome e que iríamos comer um hambúrguer! A Mel foi falar com o doutor e ele me autorizou a comer um pouquinho, meio hambúrguer. OBAA!! Todos comemoraram. Hambúrguer com batata frita, nossa, o veneno que me salvou! Respeitando o doutor, não comi o sanduíche inteiro, mas incluí umas batatinhas com coca cola e parti feliz da vida na minha bike rumo ao Colorado. Encontramos o restante da equipe do motorhome e estavam todos com ar mais calmo já que meu humor havia melhorado e estava em recuperação.


O doutor ainda estava tenso com as altitudes elevadas que iríamos enfrentar na passagem pelo Colorado. Eu estava doida para alcançar alguma ciclista e parti para um ritmo melhor, caprichei nas subidas e ao sair do Colorado já estava em terceiro lugar. Entrei em Kansas com gás total. Eu estava cheia de energia e motivada para chegar junto das outras competidoras. Agora não tinha mais espaço para questionamentos e iríamos seguir a estratégia do doutro montada nas reuniões. Era para valer.


Me senti na prova novamente. Me senti na briga. O pior já havia passado, agora era "arregaçar as mangas" e partir para o ataque. Pensava, "que venham as planícies intermináveis do Kansas, vou andar neste plano como nunca andei na minha vida". Falei para equipe para ajustarmos nossa estratégia de pausas, pois agora era recuperar e atacar. Assim fui melhorando o ritmo e com menos de 24h já estava em segundo lugar bem próximo da líder .


O momento do vômito foi crítico e poderia ter me levado a desistência. Eu agradeço muito de estar lá com doutor, ele me deu segurança, apoio e confiança para seguir. Não sei como venci esse momento, como me mantiveram por quase 20h pedalando sem ingerir absolutamente nada. Só ouvia voz do doutor: "Dani você tem que beber agua, de golinho em golinho, você tem que beber algo". Isso foi tipo um mantra na minha cabeça durante todo meu mal estar. Essa é minha única lembrança dessas 20h.


Se você pensa em fazer um RAAM solo ou algo parecido, leve um médico. Um médico que participe de todo o processo, ele fará toda a diferença . O Race Across America não é apenas uma competição, é também uma travessia de sobrevivência. O fato de ter Dr. João Felipe em ambas RAAMs (2009 e 2019) foi fundamental para meu sucesso. Principalmente na última em 2019 onde a estratégia traçada pelo doutor culminou na minha vitória em uma disputa acirrada e jamais vista em outras edições.


Fomos bi campeões e minha saúde continua firme, eu me sinto forte para buscar ainda novos desafios. Obrigada por tudo doutor !

 
Relato Dr. João Felipe Franca - segundo dia da RAAM 2019

Para equipe, montamos algumas perguntas para que o resgate às lembranças da prova seja mais simples.


1) O que a Dani teve no 2° dia? Como foi administrar essa condição de forma a mantê-la na prova?

A Dani acelerou muito nas primeiras horas de prova, estava uma condição climática desfavorável – um calor intenso e muito seco. A equipe correu para buscar gelo e água, foi uma competição entre as equipes para nos abastecer. Adicionalmente nós nos preocupamos muito em a alimentar e talvez tenhamos forçado um pouco. Neste cenário ela acabou vomitando, algumas vezes, na própria bicicleta mesmo. Com esse estado, tivemos que dar um passo atrás para recuperá-la e hidrata-la, ela perdeu 3-4 quilos nesse segundo dia e desidratou muito.


2) Qual a resposta da Dani ao tratamento/medidas propostas?

A nossa estratégia, como estava muito no início da prova foi só dar líquido, água e isotônico, para ela nas próximas 24h para ela se restabelecer até ela sentir vontade de comer. Dei analgésico e antiemético para ela poder parar de vomitar.

Ela foi seguindo e conseguiu se restabelecer, ficou com fome depois de 24h e aí acabou entrando em um fast food que ela estava com vontade de comer. Apesar da nossa não aprovação ao fastfood, ela teve uma boa resposta e foi um teste interessante para ver que ela estava realmente bem.

3) Em algum momento você achou que a Dani iria e/ou deveria abandonar a prova? Quando?

Quando ela vomitou eu fiquei preocupado de que ela não fosse conseguir prosseguir. Mas não achei que a Dani fosse abandonar, ela estava muito confiante e focada de terminar a prova. Ela teve isso na cabeça, nunca pensou em abandonar. Ela queria sim, saber de mim um prognóstico favorável para ela se restabelecer e que ainda poderia ser competitiva na prova. A gente foi bem-sucedido nas abordagens, ela respondeu muito bem e a Vivan teve uma contribuição grande nisso, afinal fizemos juntos o cardápio desses momentos pós mal-estar da Dani.


4) Quais diferenças você sentiu entre 2009 e 2019 em relação a equipe, motivação e a abordagem da Dani ?

Em 2009 éramos muito novatos, tinha lido vários relatos de experiências mal sucedidas das equipes femininas solo RAAM. Em 2007 e 2008 nenhuma mulher havia completado a prova e estávamos indo com uma equipe latino americana. Para completar o cenário nenhuma mulher latino americana havia se quer participado e completado a prova. Então, estávamos indo com esse grande desafio para mim foi especialmente, pois tinha pouca experiência como médico do esporte, ainda mais com uma prova de endurance por tantos dias. Mas fui muito preparado havia lido muitos relatos sobre os atletas na competição.


No RAAM 2009 tínhamos uma equipe muito grande. Isso de uma certa forma ajuda bastante, pois tínhamos mais revezamento de apoia à atleta na pista. Assim como a logística longe da atleta com os recursos de reposição além do aporte de patrocinador e recurso. Mais segurança e motivação, obviamente. Mais pessoas para torcer e focar, trazer esperança e força que um ou outro podia não ter por privação de sono e cansaço. A emoção de completar a prova em 2009, a gente nunca tinha feito, há dois anos nenhuma mulher tinha completado. Além do próprio mérito dela ter completado o objetivo e completado a competição e consequentemente foi vitoriosa também, mérito dela e resiliência de cumprir o objetivo no tempo estipulado.


Em 2019 largamos com apenas 5 pessoa e dois carros. Foi muito perrengue nos primeiros dias tivemos que nos multiplicar para dar conta e fazer várias funções ao mesmo tempo. Adicionalmente tivemos um imprevisto, o ar condicionado do motorhome pifou na largada. Isso nos deixou muito preocupados pois íamos pegar um deserto muito quente nos primeiro dias de prova e iríamos precisar dele. Graças a Deus conseguimos consertar! No quarto dia de prova alguns membros da equipe começaram a falhar em termos de discussões e irritabilidade por nada. O fato da Dani ter passado mal nos deixou mais preocupados e ansiosos também. Aí vimos mais dificuldade nisso. O reforço da Julia, Crico e Beta no meio da prova foi um grande alívio para ajudar um pouco mais no apoio, revezamento e no descanso da equipe.


No RAAM 2019 tínhamos menos recursos do que em 2009, foi um viagem bem mais econômica e com isso tivemos um racionamento grande de recursos e hospedagem, mas não deixou nada a desejar. O fato da equipe ter sido menor também ajudou na integridade e união da equipe, nos tornamos mais íntimos e parceiros e mais imbuídos do objetivo de levar a Dani até a vitória. E fomos consagrados até com o recorde da categoria.


5) Que outras observações você gostaria de fazer sobre a experiência do RAAM 2019

Costumo dizer que RAAM é uma prova da equipe como um todo. Não é fácil acompanhar a ciclista na estrada e ficar confinado no carro, com privação de sono, dormindo mal e as vezes nem tomando banho direito. É necessário cuidar do carro que é nossa casa e procurar lugar para se abrigar. Tem todo um desafio de logística da equipe que é sempre com o foco no atleta, mas passa também por confinamento e relacionamento com outras pessoas em diferentes estados emocionais. Eu como médico ficava muito preocupado com a saúde dela, não tanto com a performance esportiva, e acabava me envolvendo muito na saúde dos outros membros da equipe também. Observava quem precisava dormir mais, um tempo de descanso, se alimentar bem pois todos esses fatores podiam aumentar o limiar de irritabilidade. O RAAM também requer muita adaptação aos imprevistos, diferentes condições climáticas e terreno, mudança de fuso horário. Em 2019 tivemos mudança de rota, com alagamentos e enchentes, coisas imprevistas que podiam comprometer todo o trabalho. No final das contas tem ainda todo o desgaste da atleta, desgaste muscular, lesão por repetição depois de muito tempo em cima da bike. Vamos aprendendo com isso e tentando minimizar os problemas que podem acontecer. Medicando a atleta, dando mais descanso, enfatizando massagem, gelo e prevenindo possíveis problemas que podem acontecer. A experiência marcou muito a minha vida em vários aspectos da fisiologia humana, resiliência, controle de sono, controle emocional, sabendo que estamos sempre em busca de objetivos. Foi um prazer conviver com todos e vamos para o próximo desafio!


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